sábado, 12 de abril de 2014

Capítulo 3 - Verbene

Verbene
Simic
Há uma exuberância na bondade que parece ser maldade.



              Quando Simic desperta se depara com um lugar sombrio, com um cheiro insuportável em meio a muita lama e gritos de dor. Sua cabeça lateja e sente alguma coisa escorrendo dela, como se fosse sangue de um enorme ferimento que havia na nuca, mas não era sangue, era uma mistura gelatinosa e esverdeada como pus, mas mais denso. Começa a desesperar-se e procura auxílio, caminhando só encontra pessoas se arrastando pela lama do lugar, entre árvores de galhos secos e fumaça, como um imenso deposito de lixo.
              Sem auxílio e não fazendo ideia de onde está, continua peregrinando sem saber exatamente pra onde está indo. De repente um ancião deformado chama pelo seu nome.
                        - Simic, esse é o seu novo nome não é? Há quanto tempo não nos vemos heim?
                        - Quem é você? – Pergunta Simic
             Ao invés de responder, o velho cai na gargalhada e o som era ensurdecedor, como o som de muitas gralhas.
                        - Sou seu pior pesadelo!!! – Disse com um tom sombrio e anasalado, mas com um eco que parecia perfurar os tímpanos de Simic.
                        - Veio atrás da sua mocinha?
                        - Onde ela está? Você a viu? Conte-me seu velho estúpido!
                        - Está certo, sou um velho estúpido, mas você não é menos estúpido do que eu. Eu estou aqui porque escolhi estar. Eu mereço esse lugar. E você? Não deveria estar aqui. Não agora. Eu o espero há muito tempo, mas sabia que iria demorar ainda pra voltar pra cá, mas sua estupidez o trouxe antes do combinado...
                        - O que quer dizer com isso? Onde está Korina?
                        - A sua mulherzinha? Foi embora, levaram pro outro lado do abismo.
                            - Que abismo, velho? Do que está falando?
                        - O abismo que separa este lugar do lugar deles.
                        - Eles quem?
                        - Os sólidos.
                        - Quem?
                        - Você é surdo ou o que? Esqueci, você é um estúpido imbecil que ainda não se lembra de nada. Os sólidos são seres sólidos, é isso.
                        - Como assim, velho, você não está falando coisa com coisa, o que é que você bebeu, me dá um pouco aí pra ver se passa essa minha dor de cabeça.
                        - Hahahahaha (riu-se o ancião). Eu bebo do que sobra deles (disse apontando não se sabe exatamente pra onde)
                        - Você é doido. Vou embora.
                        - E você pensa que vai pra onde? Não tem aonde ir. Ou escolhe um deles (apontou novamente pro mesmo lugar indefinido) pra se encostar e ter pelo menos a migalha do que ele bebe e come, ou fica aqui se arrastando como verme, tal qual esses daí que estão pelo lamaçal, e sofre com suas dores de cabeça... Alias, caramba rapaz, que estrago fizeram aí heim? Baita pontaria do oficial húngaro que lhe acertou na estação, mas também, que catso você tinha de voltar pra socorrer sua mulherzinha.
                        - Peraí, estou me lembrando agora... A estação de trem, Korina ia embarcar, deixei-a lá e estava indo me encontrar com os amigos para fugirmos pelas montanhas e então ela foi alvejada pelo tiro de um soldado, eu gritei e fiz menção de correr, aí tudo apagou... mas como você pode saber disso? Quem é você?
                        - Hahahahaha. Já disse, sou seu pior pesadelo. Eu escolhi você pra comer, pra beber, pra ficar com suas sobras enquanto você estava lá. Eu estava todo o tempo do seu lado, sugando o que podia pra amenizar esse sofrimento daqui. Agora você veio pra cá, não tem mais serventia pra mim, vou buscar outro, me encostar em outro e você deveria fazer o mesmo, senão daqui a pouco vai estar rastejando. Alias, você foi um péssimo animalzinho de estimação, sabia? Caramba, nenhuma amante, nenhuma bebida forte, vidinha sem graça e rápida a sua heim?
                        - Ora, afaste-se de mim velho idiota. Se não quer me ajudar, vou me virar sozinho, pelo menos pode me dizer onde a levaram? Onde, em que lugar exatamente, a pegaram?
                               - Primeiro você me ofende, depois quer que eu o ajude, ora, vá lamber lama, paspalhão.
                        - Tá bem, me desculpe. Vamos começar do jeito certo, senhor Meu Pior Pesadelo, como devo chama-lo?
                        - Melhorou, mas o tom de voz ainda não está do meu agrado. (disse rindo, mostrando dentes estragados, o velho)
                        - Eu me lembro de ser chamado de Verbene quando vivia ali (disse apontando para o que agora Simic entendia ser o planeta). Mas aqui não temos nome, então me chame do que quiser.
                        - Ok senhor Verbene. Pode me dizer agora como faço para ir onde Korina está?
                        - Hahahaha, isso é impossível. Você não pode ir onde ela está. Só existe uma maneira de ir pra cidade deles, é eles virem busca-lo, ou, como eles dizem, resgata-lo.
                        - Mas eu quero, mesmo assim, tentar. Onde fica este tal de abismo?
                        - Naquela direção (disse apontando o leste).
              Simic, sem pensar duas vezes, saiu para o leste. Por todo o caminho ouvia gritos vindos da lama, por traz das arvores ressequidas. Gritos de dor e maldições. Volta e meia ouvia rugidos e sombras enormes que passavam ligeiras entre as formas estranhas do lugar. Pássaros agourentos e muitos morcegos faziam voos rasantes esbarrando os seres ali. Tinha a sensação de estar sendo seguido, tanto que por vários momentos parou e se virou para ver se via alguma coisa ou se era apenas uma má sensação proveniente da natureza em volta. Até que em uma das vezes, ao se virar, tropeçou e caiu sobre um corpo que gemia e que ao ser atingido soltou-lhe uma série ininterrupta de impropérios, foi quando o seu seguidor apareceu para lhe ajudar. Era Verbene.
                        - Cala a boca, coisa nojenta (gritou para o que xingava Simic e esse calou-se, não sem ficar resmungando baixinho).
                        - Verbene? Era você quem estava me seguindo?
                        - Não. Digamos que eu estava indo pelo mesmo caminho.
                        - Sei... E posso saber por quê?
                        - Não seja tolo, criatura. Aqui quem não está rastejando está perseguindo, seja um ao outro seja àqueles ali – Apontou Verbene para uma caravana de pessoas que seguia adiante.
                        - Quem são aqueles? Estão estranhos... Parecem, parecem... São sonâmbulos?
                        - Mais ou menos isso. Eles não são daqui, em verdade. São do planeta. O que estamos vendo são projeções deles aqui.
                        - Espere aí Verbene, o que estou vendo ali são pessoas normais, como eu e não projeções.
                        - Normais? O que você acha que é normal? Deixa pra lá, olha eu de novo aqui explicando... Esses aí estão no planeta, vivem lá, não fizeram a passagem pro nosso lado ainda, mas estão caminhando pra cá. Repare bem, pode chegar mais perto. Alguns deles estão praticamente de corpo e alma aqui já, esses são os mais definidos, como uma boa imagem de espelho. Outros, se notar bem, estão como se estivessem envoltos em fumaça, meio na penumbra, como um espelho embaçado. Percebeu a diferença?
                        - Agora que você me alertou, realmente há diferença.
                        - Os mais definidos, estão caminhando a passos largos pra cá, já fizeram sua opção e, claro, pessoas como eu ajudaram e ajudam bastante no processo de opção (contou Verbene soltando uma gargalhada).
                        - Os, ainda indefinidos, estamos trabalhando mais pesado.
                        - Então era assim que me via? Quero dizer, antes de vir pra cá?
                        - Não imbecil!!! Você era diferente. Era meu bichinho de estimação. Eu precisava de você para as coisas que me fazem falta aqui. Por exemplo, um cigarro, uma bebida, uma mulher ou um homem, tanto faz. Coisas que me dessem o prazer que não posso ter aqui. Mas, como eu já disse, você foi uma droga de bichinho. Esses daí não, esses daí são seres iguais a mim, o exercito do Pai das profundezas sendo doutrinado desde o ventre do planeta azul. Nós daqui só precisamos acompanha-los para que não desistam ou se convertam pro lado do Inimigo.
                        - Que coisa nojenta, sai daqui!!! (gritou Simic chutando a mão do nojento que agarrara seu pé e ela então desprendeu-se do corpo dele voando uns 3 metros adiante) 
                        - Que horror!!!
              Nisso o nojento voltou a berrar impropérios até que Verbene chutou sua cabeça e ele parou, ficando resmungando o restante do tempo.

                        - Não se preocupe, a mão não lhe fará falta alguma. Só vai doer. Mas é só mais uma dor. Ele se acostuma.

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