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Do outro lado da cortina
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Korina
O que as vitórias têm de mau é que não são definitivas. O que
as derrotas têm de bom é que também não são definitivas.
José Saramago
Ela
só ouvia o barulho. Um barulho contínuo de uma única explosão e era
ensurdecedor.
Do seu lado esquerdo, uma imensa mistura de
sombras como vultos, que puxavam correntes ou o que ela supunha que fossem
correntes. Do seu lado direito, só um vento, como uma brisa. Nenhuma cor,
nenhum vulto, nem claro, nem escuro.
Ela não sabia precisar quanto tempo já havia
transcorrido desde que avistara Simic indo em direção as montanhas para
encontrar com seus amigos, mas sabia que a explosão era real, até porque seu
eco era verdadeiro e persistente, como se instalado em sua própria cabeça.
As sombras a sua esquerda tentavam se
aproximar dela mas parecia que o vento não permitia, até que uma delas ganhou
contornos reais e assustadores. Era um ancião que tinha o corpo deformado,
puxava correntes com as pernas e sua mão suja tocou-lhe o ombro.
- Peguei você! Demorou muito, mas agora você
é minha!
A voz... Aquela voz superou o barulho da
explosão e penetrou os seus sentidos. Então o vento soprou a voz, seu dono e
todas as sombras para longe da presença de Korina. A explosão cessou.
Brancura. Não dá para descrever de outra
forma. Alvo como o algodão. Um branco do qual ela jamais se esquecerá. Foi
neste ambiente que ela despertou. Ainda sentia o zunido em seus ouvidos e
enquanto tentava entender isso, um jovem também vestido com aquele branco,
falou-lhe ao lado da cama.
- Não se assuste irmã. Você agora está bem.
Não há mais barulho algum, são apenas as suas lembranças zunindo em sua mente,
mas já vai passar.
- Onde estou? Que lugar é esse?
- Você está bem e, acredite, é tudo que precisa
saber por enquanto.
- Mas onde estou. Que lugar é esse?
- Permita que me apresente. Meu nome é
Salatiel, sou seu... “amigo desconhecido” há muito, muito tempo. Você está na
atmosfera terrestre, mas não no planeta, propriamente dito. Você está acima
dele, num outro plano e apesar da matéria aqui ainda ser densa, é muito menos
que no planeta, em outras palavras, as pessoas que vivem no planeta não podem
nos ver aqui e não todas as pessoas, porque existem algumas que podem nos
perceber, têm lampejos de nossa presença, visões, como eles mesmos chamam.
- Acima da Terra? Invisíveis? Como assim? Eu
estou morta, sou um fantasma?
- Sim e não. Bem, vou explicar de um jeito
simples pra que você possa começar a entender.
- Você não é um fantasma e sim, você não está
mais viva no planeta Terra, consequentemente, você está morta para quem ali
vive.
- Mas então, eu estou num sonho.
- Não. Não se trata de sonho. Você está num
estado intermediário entre quem de fato é e suas lembranças apagadas. Em muito
pouco tempo você retomará seu passado, digo em muito pouco tempo, pois, na
verdade, você é especialmente diferente das pessoas que vivem aqui e
completamente diferente das que vivem no planeta.
- Como assim? Por favor, tente me explicar,
isso é muito confuso e novo pra mim.
- Na verdade irmã, novo não é, mas isso você
só vai descobrindo aos poucos, daqui por diante, recobrando a identidade, mas,
aqui foi o seu lar por um longo período. Depois você se mudou, digamos assim,
para o andar superior, para outra cidade, outra sociedade com outros planos,
diferentes dos daqui, comprometidos com os propósitos superiores para as vidas
que aqui estão e que estão no planeta também.
- Sinceramente, isso é muito confuso mesmo,
mas quando eu estava em meio aquelas sombras, veio um ancião muito estranho
conversar comigo, na verdade parecia vir me agredir como se quisesse me
aprisionar. Quando ele me tocou, soprou um vento forte do outro lado e não
consigo me lembrar de mais nada, como se eu tivesse apagado. Sinto que eu o
conhecia, nem sei explicar como. Quem era ele? Que lugar era aquele?
- Bem, acho que isso eu consigo explicar.
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