sábado, 29 de março de 2014

Capítulo 2 - Carta de Amor vol 2 - A Ampulheta

Do outro lado da cortina
Korina

O que as vitórias têm de mau é que não são definitivas. O que as derrotas têm de bom é que também não são definitivas.
José Saramago



                               Ela só ouvia o barulho. Um barulho contínuo de uma única explosão e era ensurdecedor.
                        Do seu lado esquerdo, uma imensa mistura de sombras como vultos, que puxavam correntes ou o que ela supunha que fossem correntes. Do seu lado direito, só um vento, como uma brisa. Nenhuma cor, nenhum vulto, nem claro, nem escuro.
                        Ela não sabia precisar quanto tempo já havia transcorrido desde que avistara Simic indo em direção as montanhas para encontrar com seus amigos, mas sabia que a explosão era real, até porque seu eco era verdadeiro e persistente, como se instalado em sua própria cabeça.
                        As sombras a sua esquerda tentavam se aproximar dela mas parecia que o vento não permitia, até que uma delas ganhou contornos reais e assustadores. Era um ancião que tinha o corpo deformado, puxava correntes com as pernas e sua mão suja tocou-lhe o ombro.
                        - Peguei você! Demorou muito, mas agora você é minha!
                        A voz... Aquela voz superou o barulho da explosão e penetrou os seus sentidos. Então o vento soprou a voz, seu dono e todas as sombras para longe da presença de Korina. A explosão cessou.
                        Brancura. Não dá para descrever de outra forma. Alvo como o algodão. Um branco do qual ela jamais se esquecerá. Foi neste ambiente que ela despertou. Ainda sentia o zunido em seus ouvidos e enquanto tentava entender isso, um jovem também vestido com aquele branco, falou-lhe ao lado da cama.
                        - Não se assuste irmã. Você agora está bem. Não há mais barulho algum, são apenas as suas lembranças zunindo em sua mente, mas já vai passar.
                        - Onde estou? Que lugar é esse?
                        - Você está bem e, acredite, é tudo que precisa saber por enquanto.
                        - Mas onde estou. Que lugar é esse? 
                        - Permita que me apresente. Meu nome é Salatiel, sou seu... “amigo desconhecido” há muito, muito tempo. Você está na atmosfera terrestre, mas não no planeta, propriamente dito. Você está acima dele, num outro plano e apesar da matéria aqui ainda ser densa, é muito menos que no planeta, em outras palavras, as pessoas que vivem no planeta não podem nos ver aqui e não todas as pessoas, porque existem algumas que podem nos perceber, têm lampejos de nossa presença, visões, como eles mesmos chamam.
                        - Acima da Terra? Invisíveis? Como assim? Eu estou morta, sou um fantasma?
                        - Sim e não. Bem, vou explicar de um jeito simples pra que você possa começar a entender.
                        - Você não é um fantasma e sim, você não está mais viva no planeta Terra, consequentemente, você está morta para quem ali vive.
                        - Mas então, eu estou num sonho.
                        - Não. Não se trata de sonho. Você está num estado intermediário entre quem de fato é e suas lembranças apagadas. Em muito pouco tempo você retomará seu passado, digo em muito pouco tempo, pois, na verdade, você é especialmente diferente das pessoas que vivem aqui e completamente diferente das que vivem no planeta.
                        - Como assim? Por favor, tente me explicar, isso é muito confuso e novo pra mim.
                        - Na verdade irmã, novo não é, mas isso você só vai descobrindo aos poucos, daqui por diante, recobrando a identidade, mas, aqui foi o seu lar por um longo período. Depois você se mudou, digamos assim, para o andar superior, para outra cidade, outra sociedade com outros planos, diferentes dos daqui, comprometidos com os propósitos superiores para as vidas que aqui estão e que estão no planeta também.
                        - Sinceramente, isso é muito confuso mesmo, mas quando eu estava em meio aquelas sombras, veio um ancião muito estranho conversar comigo, na verdade parecia vir me agredir como se quisesse me aprisionar. Quando ele me tocou, soprou um vento forte do outro lado e não consigo me lembrar de mais nada, como se eu tivesse apagado. Sinto que eu o conhecia, nem sei explicar como. Quem era ele? Que lugar era aquele?

                        - Bem, acho que isso eu consigo explicar.  

sexta-feira, 28 de março de 2014

Capítulo 1 - Cartas de Amor vol 2 - A Ampulheta

A ampulheta
Paulo
               
Você se define através do que considera mau e bom.
Por isso, o maior mal seria não considerar nada mau.
Neale Donald Walsh




                             - Paulo, posso lhe dar a oportunidade de voltar ao passado, mas de antemão você deve saber que nada do que fizer ou disser poderá modificar o futuro de onde está agora. Mesmo que você consiga convencer as pessoas de sua certeza, isso não mudará a história que já ocorreu. Está disposto a reenfrentar seus sofrimentos? – diz Nágila.
                        - Sei o quanto isso pode me machucar, Nágila, mas estou.
                        - Bem, há certo trabalho a ser feito, se bem que não será difícil para você. Você retornará alguns meses antes de conhecer Korina. Não se apresse e nem se aflija. Você corre o risco e, antes que aceite, pense nisso, de nada ocorrer entre vocês.
              - Como assim?
                                      - Você perceberá que entre vocês, na verdade, há uma separação étnica. Suas famílias são inimigas, o que a principio será um enorme obstáculo. É importante que você retorne àquele tempo bem antes de conhecê-la, exatamente para sentir essa sensação do ódio étnico. Absurdo para alguns, mas vital na relação que eventualmente vocês tenham, digo assim porque pode não ocorrer, é uma emoção que você não terá como escapar.
               - Mas, Nágila, como isso pode ser possível?
                            - Sem essa sensação nada pode ser possível e você saberá por quê. Tem mais uma coisa...
Nágila fez uma pausa como buscando a maneira correta de se expressar.
                             - Que coisa, Nágila?
                             - Você precisa retornar antes de ser morto pelos austro-húngaros mesmo que por qualquer acaso você esteja com Korina ou próximo a ela, você deve se afastar. Isso você tem de me prometer ou infelizmente não poderei ajudá-lo a voltar a seu passado.
                             - Mas e se eu não conseguir? Se eu não resistir deixa-la só?  
                             - Isso agora é com você. Enquanto não houver esta certeza em sua mente não poderei ajudá-lo.
                              - Entendi Nágila, mas mesmo assim, se eu não resistir e ficar?
                              - Sua historia sua alma, você, para todo o sempre, será deletado. Como se jamais houvesse existido. Nem Korina, passado, futuro ou tempo. Você volta ao nada absoluto do principio de tudo. Isso é o máximo que consigo explicar. Percebe porque não pode acontecer?
                              - E como eu posso evitar isso, Nágila?
                              - Se vocês se entenderem e tudo desenrolar como de fato ocorreu, não vá à estação quando estiver de partida para as montanhas. Se de alguma maneira vocês estiverem juntos em outro canto qualquer, não esteja com ela quando ela morrer. E se vocês não se entenderem, enfim, se não estiverem apaixonados, também assim, jamais esteja próximo a ela na hora de seu desenlace.
                              - Não entendo, Nágila, eu mesmo não morro, logo após ela?
                              - Não deveria!
              Já no hotel, em seu quarto, Paulo sente uma forte sonolência. Repara que sobre a mesinha de cabeceira tem um envelope com seu nome escrito, abre e lê:

“Amor da minha existência. Estou feliz pela permissão que tive para lhe escrever. Quero lhe contar um pouco do tempo, ele como um circulo, tudo dentro dele acontece simultaneamente.
Neste exato momento em que lhe escrevo, vivo em 1879, me chamo Victória, sou princesa, estou num hospital e no quarto está meu filho, Edmundo, de seis anos de idade. Ele foi acometido de uma doença chamada difteria, extremamente contagiosa e aparentemente, sem cura. Ele precisa ficar isolado. Há uma enfermeira aqui conosco, ele fica numa espécie de bolha e eu só fico espiando... Agora ele está falando:
- Por que minha mãe não me abraça mais? Ela sempre me abraçava e me beijava antes de dormir...
Percebo que ele está chorando e não aguento o que estou ouvindo. Agora eu esqueço dos cuidados, rompo a barreira, empurro a enfermeira e contra qualquer bom senso, abraço e beijo muito o meu filho.
Agora já estamos duas semanas mais adiante, meu corpo desce a sepultura onde o corpo do meu filho já está. Não há muitas pessoas no meu funeral. O medo do contagio é maior que a ignorância. Percebo um vulto flutuando sobre os presentes enquanto chapisca a terra sobre meu caixão. Ainda dá pra identificar... é você meu amor, muito escuro, muito mal acompanhado, mas comigo, perto de mim.
Eu poderia lhe contar muitas outras situações em que vivo agora, mas basta um exemplo. Vivemos todos os tempos dentro do tempo, como uma mola que encolhe e estica, mas ainda a mesma mola. Não o futuro, esse não nos pertence, não está incluso no cardápio. Ele aparece em inúmeras situações, como possibilidade palpável conforme a escolha que fazemos no último instante, pelo menos é assim que entendo ou que me é permitido entender. Eu, enquanto Victória, poderia ter evitado meu desfecho? Eu tenho nova escolha depois de ter escolhido? São respostas e não perguntas, porque já está resolvido. Deixe o passado onde ele está, no passado, se é que posso aconselhar, ou não, mas antes de optar vislumbre o resultado da sua escolha, com o coração.
Agora neste momento eu o vejo ao lado de Jesus, ele o observa curioso, é uma imagem muito linda e difícil que sintonizo. Agora ele apanha um ramo de alecrim, cheira e ri deliciosamente mas você não percebe, você ainda não o conhece e nem a luz que dele sai. Agora ele está aqui, do meu e do seu lado, enquanto eu escrevo, você ajuda no flagelo dele, me observa no funeral de Victoria, pula pra dentro do trem, acena da janela, é Simic e é romano, um inglês e um fotografo, todos em um, é o meu amor de toda a eternidade e Jesus mastiga o alecrim, sorri e pede, carinhosamente, pra eu parar aqui.”
Korina
              Nágila se certifica da decisão de Paulo em realmente retornar ao seu passado. Ele lhe mostra a carta que encontrou no hotel e diz não ter mais dúvida.
                        - Só uma coisa Paulo, não se trata de regressão, como em qualquer terapia de vidas passadas, mas sim, um apagão. – explica Nágila
                         - Você vai ser desligado desta existência e eu não terei qualquer influência, como tem, por exemplo, um parapsicólogo, ou seja, é por sua conta e risco.
                             - Eu gostaria de lhe oferecer um aposento aqui no sítio, acho mais apropriado e todas as vezes que precisei recorrer a este procedimento, preferi que fosse aqui, porque consigo sentir o momento de interferir e trazer a pessoa de volta.
                        - Deixe-me entender. Você não terá influência, quer dizer que para mim é uma viagem às cegas, é isso?
                        - Não exatamente “às cegas”. Eu consigo interagir, estar no mesmo canal vibratório que você, mas você não me verá por uma questão meramente física, não posso entrar em cena, mesmo observando. Em resumo vou estar apenas assistindo, por esse motivo é que eu disse que tenho como interferir caso alguma coisa dê errado.
                        - Entendi, mas se é assim, porque insistiu que eu me afaste de Korina no momento em que ela é atingida pela bala do soldado? Se você pode interferir, não deveria?
                        - É muito rápido Paulo. Eu não teria como agir, a não ser que eu agisse antes de irem pra estação e assim você não estaria lá, seria seguro, mas não sei até que ponto uma parte de sua historia estaria perdida. – disse Nágila com olhos muito questionadores.
                        - Eu me lembro de um filme (comentou Paulo), na verdade um seriado, em que dois amigos viajavam pelo tempo. Lembro-me de ficar torcendo pra que fossem ao futuro, mas 90% dos episódios eles iam para o passado. O engraçado do filme é que eles nunca sabiam exatamente para onde iriam, quando percebiam lá estavam, numa guerra, num momento histórico, ou em qualquer lugar do passado. Pergunto: e se, ao invés de ir para o tempo em que convivi com Korina, no Kosovo, algo der errado e eu ir parar, por exemplo, no tempo em que fiquei entre aquele tempo e o nosso tempo atual. Em outras palavras, eu estar naquele lugar que não é aqui, nem o aqui daquele tempo, mas o intermédio, o lugar pra onde vamos quando morremos?
                        - Isso não vai acontecer porque você vai voltar antes de morrer e vou fazer, com toda a certeza, que chegue lá antes de conhecer sua Korina, isso eu garanto.
                        - Mas é exatamente isso, Nágila. Chegarei lá sem nenhuma consciência do que estamos falando agora, não é?
                        - Sim.
                        - Eu e você já sabemos o que aconteceu e o que vai acontecer com ela, quer eu queira ou não. Certo?
                        - Certo. Aonde quer chegar?
                        - Quero ir para depois do desenlace. Para o lugar aonde vamos transitoriamente antes de voltarmos para o planeta e para outra vida, não é assim que chamam esse lugar? Transitório?
                        - Paulo, eu nunca fiz esse tipo de retorno... Nem sei se é possível, ou viável. Porque quer isso?
                        - Quero entender o que querem comigo. Será que consegue fazer isso por mim? Será que vai conseguir interagir comigo neste lugar?
                        - Vou conseguir interagir com você onde quer que vá. Mas tem certeza do que está me pedindo?
                        - Como nunca tive em toda a minha vida.
                        - Então está bem, me aguarde um pouco que já vamos aos seus aposentos. – disse isso e Paulo retirou-se para aguarda-la, fora da casa.
Nágila teve uma visão assim que Paulo saiu da sala. Na visão ela via um lugar com muita dor, muitos feridos e muita gente socorrendo essas pessoas, como um grande hospital a céu aberto. Paulo estava entre as pessoas que socorriam os feridos... De repente  a cena mudou, ela está ao lado de Paulo e um ser de luz muito alto, olha diretamente para ela e sorri dizendo essas palavras:
               “- Minha aldeia é vizinha da sua, mas não nos frequentamos.
               Minha tribo não tem os costumes da sua, mas é faminta da mesma fome.
             Chamamos-nos também por nomes parecidos, mas não falamos sua língua.
              Furamos os séculos e atravessamos as mesmas estações, mas por conveniência não lembramos de onde os conhecemos...
              Seguimos um destino que ignoramos, por isso inventamos guerras, algumas contra vocês.
             Não acreditamos nas suas verdades, mas nunca paramos para ouvir.
            Ouvimos as suas mentiras, mas nunca desembrulhamos as nossas.
             Ainda somos os mesmos que Deus espalhou de si mesmo, ainda que não pareçamos, somos iguais.
             Vocês o chamam de um jeito e nós de outro, mas Deus nos atende no mesmo nome, pessoalmente, individualmente. Que Ele nos proteja de nossas escolhas!
             Os que deixamos nas ruas, os que deixamos à margem, não importa quem tenha parido, se a sua ou a minha tribo, são pedaços seus e meus que tratamos como sobra e que precisamos restaurar, porque nos faltará no reajuntamento de Deus.
              Aquilo que tiro de você é muito menor do que tiro de mim ao lhe ferir. Porque me esvazio. Porque nos esvaziamos quando jogamo-nos fora, uns contra os outros.
                Talvez possamos dividir a areia, somos da mesma ampulheta, da mesma vitrine, do mesmo varal.
                Somos perfeitos juntos. Separados estamos sozinhos. Deus vai continuar a procura de si mesmo em mim e em você. Nós vamos continuar nos afastando de Deus. Eu de você. Você de mim. Até o dia que pararmos de brincar de esconde-esconde, até por que... De Deus ninguém se esconde.”
               A visão desaparece e Nágila volta como se estivesse ficado em transe durante aqueles breves minutos.
              Nágila levou Paulo a um quarto arejado, fora da casa principal de seu sitio e lá começaram os procedimentos para que ele regredisse ao passado.
                        - Antes que parta, Paulo, me fale um pouco sobre o que entende de religião, porque esse seu afastamento das coisas de Deus? Gostaria de ouvi-lo.
                        - Sabe essas situações que você fica pensando, por exemplo, aquele dia que você conheceu aquela pessoa que iria mudar sua vida. Pois bem, você entrou num determinado lugar, numa certa hora e, por incrível que pareça, aquela pessoa também estava lá. Vocês acabaram se conhecendo, bem ou mal, e sua vida nunca mais foi a mesma depois daquele dia. Construíram uma relação, tiveram filhos, etc, etc, etc. Pergunto: Isso já estava predestinado a acontecer? Tudo convergiu para aquele exato instante? Que tipo de conspiração é essa que o universo faz, onde não existe livre arbítrio ou o livre arbítrio é só historia da carochinha? Se não existe acaso, como apregoam as escrituras, então aquela situação, seja qual for, já estava desenhada. Mas ok, não existe acaso e existe o tal do livre arbítrio, então estamos a mercê das próprias escolhas, certo? Então me explica o seguinte, eu estava destinado a conhecer determinada pessoa (por expiação, por complementação ou por amor) daí por um descuido meu ou desta pessoa, nos estrepamos pela vida afora e lá na frente nos conhecemos (ou reconhecemos?) e como num passe de mágica, mudamos nossas historias (para o bem ou para o mal). Caramba, se isto aconteceria, contra ou a favor de nossa vontade, porque cargas d’água querem que acreditemos em livre arbítrio? Como pode ser isto? Tipo assim: “olha só, até aqui você vai sozinho, mas em algum lugar eu vou botar meu dedo e mudar seu destino com ou sem a sua permissão”. Aí você me diz, “ah, mas você escolheu que seria assim” e eu respondo, “como posso ser responsável por uma escolha de que não me lembro ter feito?” e você sentencia, “quando se lembrar vai perceber que era necessário que fosse assim”. Pronto, eu sou um fantoche e, pior, de mim mesmo. Inconscientemente todas as cagadas que faço e fiz na vida é por causa de um tal véu de esquecimento que eu não tenho a menor possibilidade de remover para tornar essa trajetória mais amena pelo planeta, ou, pelo menos, menos conturbada. É como se o papel de Deus estivesse engavetado na minha memoria e fosse incapacitado de agir na minha vida por conta de que a chave desta gaveta estivesse embrulhada num véu de esquecimento que eu mesmo, a despeito de ele ser Deus, tinha determinado que fosse assim, ou seja, nasci pra sofrer porque eu quis que fosse assim e nem Deus pode me ajudar. Que absurdo. – desabafou Paulo
                        - Interessante seu ponto de vista. Mas existe sim o livre arbítrio, só que ele vai de encontro ao que você mesmo desenhou de seu destino, sei que não lhe agrada saber disso, mas é assim.
                        - Pois é, já pensei em ser um religioso, entrar para algum tipo de igreja, seita, credo...
                        - Não faça isso. Não quero que você seja um religioso, destes que saem pelas ruas, praças, metrôs, estações rodoviárias, bradando que o fim está próximo, que é preciso se arrepender. Não, o homem não foi desligado de Deus para que tivesse que se religar e mesmo que isto tivesse ocorrido, a “religião” não é um interruptor que acende a luz do mundo. Deus quer o seu coração, não a sua rendição. Ele o tornou capaz de discernir. A sua escolha é só sua, ninguém pode lhe dizer que determinado caminho é certo ou é errado, isso você pressente no instante que opta por um ou por outro.
              - Muitas pessoas vão às igrejas a procura de Deus e muitas O encontram, mas nem todas. Então eu pergunto; Deus não está na igreja? E se Ele não está, como alguns O encontram lá? Vou poupa-lo da resposta, eu respondo; Ele está na igreja.
              - Outras pessoas vão busca-Lo em templos, casas espiritas, cultos espiritualistas e, como as primeiras, algumas O encontram e outras não. Deus não está lá? Ele está. Resumindo, Deus estará onde você O procurar, porque, na verdade, você O carrega a todos os lugares onde vai, só não se lembra disso. Se você bater na porta, Ele vai abrir. Busque-O e O encontrará.
              - É preciso ser dito aqui uma verdade. A grande maioria, a massa esmagadora que diz que vai a igreja (ou templo, ou seja qual for o lugar de “religião”) procurar Deus, mente. Só procuram a Deus no momento ruim, não por adora-Lo ou por acreditar que Ele pode todas as coisas, O procuram numa última (eu disse ÚLTIMA) tentativa de resolver uma tragédia, seja de uma doença terminal, de um filho perdido nas drogas, de uma vida financeira arruinada, um casamento destruído, um cônjuge que trai ou um pai que bebe, bem, a lista é imensa, inumerável, mas é aí que se lembram do Deus que criou a eternidade e mapeou de avisos todos os seus itinerários, “não vá por aí”, “não dê o primeiro gole”, “não repare tanto assim”, “cuidado”, “cuidado”, “cuidado”... Então vão busca-Lo. O Deus mágico que estala os dedos e coloca todas s coisas no lugar. Digamos então que resolveu. Pronto. A pessoa consegue sentir a presença Dele e a partir daí, sua vida volta ao normal, seus problemas se resolvem, seu mundo entra nos eixos. Ok? Não demora quase nada, a maioria sai da “religião”, não participa mais, não tem vontade. Sabe por que? Volte lá para traz. Ela não foi buscar a Deus, não era esse seu foco. Ela foi buscar o milagre, com Quem cria o milagre e acabou. Ela não lembra, não sabe ou não entende que Ele vai onde ela vai porque ela o carrega e se sua atitude O entristece a ponto de Ele deixar que siga sozinha, ela vai reclamar que Ele não liga pra ela... Essa é a religião que você realmente quer seguir? Garanto que não é a que Deus quer que você siga.
                        - Você é ótima Nágila, ainda quero muito conversar com você. Não estou a procura de Deus por desespero, como a imensa maioria, eu estou a procura do que Deus quer comigo.
                        - Bem, alguma coisa me diz que conversaremos bastante durante sua viagem e lá mesmo, no lugar onde estará... Então, preparado? Acalme-se e boa viagem... – nisso Paulo desliga.


“E da boca do dragão, e da boca da besta, e da boca do falso profeta, vi saírem três espíritos imundos, semelhantes a rãs.”

Apocalipse 16:13