Paulo
Você se define através do que considera
mau e bom.
Por isso, o maior mal seria não
considerar nada mau.
Neale Donald Walsh
- Paulo, posso lhe dar a oportunidade de
voltar ao passado, mas de antemão você deve saber que nada do que fizer ou
disser poderá modificar o futuro de onde está agora. Mesmo que você consiga
convencer as pessoas de sua certeza, isso não mudará a história que já ocorreu.
Está disposto a reenfrentar seus sofrimentos? – diz Nágila.
- Sei o
quanto isso pode me machucar, Nágila, mas estou.
- Bem, há
certo trabalho a ser feito, se bem que não será difícil para você. Você
retornará alguns meses antes de conhecer Korina. Não se apresse e nem se
aflija. Você corre o risco e, antes que aceite, pense nisso, de nada ocorrer
entre vocês.
- Como
assim?
- Você perceberá que entre vocês,
na verdade, há uma separação étnica. Suas famílias são inimigas, o que a
principio será um enorme obstáculo. É importante que você retorne àquele tempo
bem antes de conhecê-la, exatamente para sentir essa sensação do ódio étnico.
Absurdo para alguns, mas vital na relação que eventualmente vocês tenham, digo
assim porque pode não ocorrer, é uma emoção que você não terá como escapar.
- Mas, Nágila, como isso pode
ser possível?
- Sem essa sensação nada pode ser possível e
você saberá por quê. Tem mais uma coisa...
Nágila fez uma pausa
como buscando a maneira correta de se expressar.
- Que coisa, Nágila?
- Você precisa retornar antes de
ser morto pelos austro-húngaros mesmo que por qualquer acaso você esteja com
Korina ou próximo a ela, você deve se afastar. Isso você tem de me prometer ou
infelizmente não poderei ajudá-lo a voltar a seu passado.
- Mas e se eu não conseguir? Se
eu não resistir deixa-la só?
-
Isso agora é com você. Enquanto não houver esta certeza em sua mente não
poderei ajudá-lo.
- Entendi Nágila, mas mesmo assim, se
eu não resistir e ficar?
- Sua historia sua alma, você, para
todo o sempre, será deletado. Como se jamais houvesse existido. Nem Korina,
passado, futuro ou tempo. Você volta ao nada absoluto do principio de tudo.
Isso é o máximo que consigo explicar. Percebe porque não pode acontecer?
- E como eu posso evitar isso,
Nágila?
- Se vocês se
entenderem e tudo desenrolar como de fato ocorreu, não vá à estação quando
estiver de partida para as montanhas. Se de alguma maneira vocês estiverem
juntos em outro canto qualquer, não esteja com ela quando ela morrer. E se
vocês não se entenderem, enfim, se não estiverem apaixonados, também assim,
jamais esteja próximo a ela na hora de seu desenlace.
- Não entendo, Nágila, eu mesmo não
morro, logo após ela?
- Não deveria!
Já no hotel, em seu quarto, Paulo
sente uma forte sonolência. Repara que sobre a mesinha de cabeceira tem um
envelope com seu nome escrito, abre e lê:
“Amor
da minha existência. Estou feliz pela permissão que tive para lhe escrever.
Quero lhe contar um pouco do tempo, ele como um circulo, tudo dentro dele
acontece simultaneamente.
Neste
exato momento em que lhe escrevo, vivo em 1879, me chamo Victória, sou
princesa, estou num hospital e no quarto está meu filho, Edmundo, de seis anos
de idade. Ele foi acometido de uma doença chamada difteria, extremamente
contagiosa e aparentemente, sem cura. Ele precisa ficar isolado. Há uma
enfermeira aqui conosco, ele fica numa espécie de bolha e eu só fico
espiando... Agora ele está falando:
-
Por que minha mãe não me abraça mais? Ela sempre me abraçava e me beijava antes
de dormir...
Percebo
que ele está chorando e não aguento o que estou ouvindo. Agora eu esqueço dos
cuidados, rompo a barreira, empurro a enfermeira e contra qualquer bom senso,
abraço e beijo muito o meu filho.
Agora
já estamos duas semanas mais adiante, meu corpo desce a sepultura onde o corpo
do meu filho já está. Não há muitas pessoas no meu funeral. O medo do contagio
é maior que a ignorância. Percebo um vulto flutuando sobre os presentes
enquanto chapisca a terra sobre meu caixão. Ainda dá pra identificar... é você
meu amor, muito escuro, muito mal acompanhado, mas comigo, perto de mim.
Eu
poderia lhe contar muitas outras situações em que vivo agora, mas basta um
exemplo. Vivemos todos os tempos dentro do tempo, como uma mola que encolhe e
estica, mas ainda a mesma mola. Não o futuro, esse não nos pertence, não está
incluso no cardápio. Ele aparece em inúmeras situações, como possibilidade
palpável conforme a escolha que fazemos no último instante, pelo menos é assim
que entendo ou que me é permitido entender. Eu, enquanto Victória, poderia ter
evitado meu desfecho? Eu tenho nova escolha depois de ter escolhido? São
respostas e não perguntas, porque já está resolvido. Deixe o passado onde ele
está, no passado, se é que posso aconselhar, ou não, mas antes de optar
vislumbre o resultado da sua escolha, com o coração.
Agora
neste momento eu o vejo ao lado de Jesus, ele o observa curioso, é uma imagem
muito linda e difícil que sintonizo. Agora ele apanha um ramo de alecrim,
cheira e ri deliciosamente mas você não percebe, você ainda não o conhece e nem
a luz que dele sai. Agora ele está aqui, do meu e do seu lado, enquanto eu
escrevo, você ajuda no flagelo dele, me observa no funeral de Victoria, pula
pra dentro do trem, acena da janela, é Simic e é romano, um inglês e um
fotografo, todos em um, é o meu amor de toda a eternidade e Jesus mastiga o alecrim,
sorri e pede, carinhosamente, pra eu parar aqui.”
Korina
Nágila se certifica da
decisão de Paulo em realmente retornar ao seu passado. Ele lhe mostra a carta
que encontrou no hotel e diz não ter mais dúvida.
- Só uma coisa Paulo, não se trata de
regressão, como em qualquer terapia de vidas passadas, mas sim, um apagão. –
explica Nágila
- Você
vai ser desligado desta existência e eu não terei qualquer influência, como
tem, por exemplo, um parapsicólogo, ou seja, é por sua conta e risco.
- Eu gostaria de
lhe oferecer um aposento aqui no sítio, acho mais apropriado e todas as vezes
que precisei recorrer a este procedimento, preferi que fosse aqui, porque
consigo sentir o momento de interferir e trazer a pessoa de volta.
- Deixe-me entender. Você não terá
influência, quer dizer que para mim é uma viagem às cegas, é isso?
- Não exatamente “às cegas”. Eu consigo
interagir, estar no mesmo canal vibratório que você, mas você não me verá por
uma questão meramente física, não posso entrar em cena, mesmo observando. Em
resumo vou estar apenas assistindo, por esse motivo é que eu disse que tenho
como interferir caso alguma coisa dê errado.
- Entendi, mas se é assim, porque insistiu
que eu me afaste de Korina no momento em que ela é atingida pela bala do
soldado? Se você pode interferir, não deveria?
- É muito rápido Paulo. Eu não teria como
agir, a não ser que eu agisse antes de irem pra estação e assim você não
estaria lá, seria seguro, mas não sei até que ponto uma parte de sua historia
estaria perdida. – disse Nágila com olhos muito questionadores.
- Eu me lembro de um filme (comentou Paulo),
na verdade um seriado, em que dois amigos viajavam pelo tempo. Lembro-me de
ficar torcendo pra que fossem ao futuro, mas 90% dos episódios eles iam para o
passado. O engraçado do filme é que eles nunca sabiam exatamente para onde
iriam, quando percebiam lá estavam, numa guerra, num momento histórico, ou em
qualquer lugar do passado. Pergunto: e se, ao invés de ir para o tempo em que
convivi com Korina, no Kosovo, algo der errado e eu ir parar, por exemplo, no
tempo em que fiquei entre aquele tempo e o nosso tempo atual. Em outras
palavras, eu estar naquele lugar que não é aqui, nem o aqui daquele tempo, mas
o intermédio, o lugar pra onde vamos quando morremos?
- Isso não vai acontecer porque você vai
voltar antes de morrer e vou fazer, com toda a certeza, que chegue lá antes de
conhecer sua Korina, isso eu garanto.
- Mas é exatamente isso, Nágila. Chegarei lá
sem nenhuma consciência do que estamos falando agora, não é?
- Sim.
- Eu e você já sabemos o que aconteceu e o
que vai acontecer com ela, quer eu queira ou não. Certo?
- Certo. Aonde quer chegar?
- Quero ir para depois do desenlace. Para o
lugar aonde vamos transitoriamente antes de voltarmos para o planeta e para outra
vida, não é assim que chamam esse lugar? Transitório?
- Paulo, eu nunca fiz esse tipo de retorno...
Nem sei se é possível, ou viável. Porque quer isso?
- Quero entender o que querem comigo. Será
que consegue fazer isso por mim? Será que vai conseguir interagir comigo neste
lugar?
- Vou conseguir interagir com você onde quer
que vá. Mas tem certeza do que está me pedindo?
- Como nunca tive em toda a minha vida.
- Então está bem, me aguarde um pouco que já vamos
aos seus aposentos. – disse isso e Paulo retirou-se para aguarda-la, fora da
casa.
Nágila teve uma visão
assim que Paulo saiu da sala. Na visão ela via um lugar com muita dor, muitos
feridos e muita gente socorrendo essas pessoas, como um grande hospital a céu
aberto. Paulo estava entre as pessoas que socorriam os feridos... De
repente a cena mudou, ela está ao lado
de Paulo e um ser de luz muito alto, olha diretamente para ela e sorri dizendo
essas palavras:
“- Minha aldeia é vizinha da
sua, mas não nos frequentamos.
Minha tribo não tem os costumes
da sua, mas é faminta da mesma fome.
Chamamos-nos também por nomes
parecidos, mas não falamos sua língua.
Furamos os séculos e atravessamos
as mesmas estações, mas por conveniência não lembramos de onde os conhecemos...
Seguimos um destino que
ignoramos, por isso inventamos guerras, algumas contra vocês.
Não acreditamos nas suas verdades, mas nunca
paramos para ouvir.
Ouvimos as suas mentiras, mas nunca
desembrulhamos as nossas.
Ainda somos os mesmos que Deus
espalhou de si mesmo, ainda que não pareçamos, somos iguais.
Vocês o chamam de um jeito e nós de outro,
mas Deus nos atende no mesmo nome, pessoalmente, individualmente. Que Ele nos
proteja de nossas escolhas!
Os que deixamos nas ruas, os que
deixamos à margem, não importa quem tenha parido, se a sua ou a minha tribo,
são pedaços seus e meus que tratamos como sobra e que precisamos restaurar,
porque nos faltará no reajuntamento de Deus.
Aquilo que tiro de você é muito
menor do que tiro de mim ao lhe ferir. Porque me esvazio. Porque nos esvaziamos
quando jogamo-nos fora, uns contra os outros.
Talvez possamos dividir a
areia, somos da mesma ampulheta, da mesma vitrine, do mesmo varal.
Somos perfeitos juntos.
Separados estamos sozinhos. Deus vai continuar a procura de si mesmo em mim e
em você. Nós vamos continuar nos afastando de Deus. Eu de você. Você de mim.
Até o dia que pararmos de brincar de esconde-esconde, até por que... De Deus
ninguém se esconde.”
A visão desaparece e Nágila
volta como se estivesse ficado em transe durante aqueles breves minutos.
Nágila levou Paulo a um quarto
arejado, fora da casa principal de seu sitio e lá começaram os procedimentos
para que ele regredisse ao passado.
- Antes que parta, Paulo, me fale um pouco
sobre o que entende de religião, porque esse seu afastamento das coisas de
Deus? Gostaria de ouvi-lo.
- Sabe essas situações que você fica
pensando, por exemplo, aquele dia que você conheceu aquela pessoa que iria
mudar sua vida. Pois bem, você entrou num determinado lugar, numa certa hora e,
por incrível que pareça, aquela pessoa também estava lá. Vocês acabaram se
conhecendo, bem ou mal, e sua vida nunca mais foi a mesma depois daquele dia.
Construíram uma relação, tiveram filhos, etc, etc, etc. Pergunto: Isso já
estava predestinado a acontecer? Tudo convergiu para aquele exato instante? Que
tipo de conspiração é essa que o universo faz, onde não existe livre arbítrio
ou o livre arbítrio é só historia da carochinha? Se não existe acaso, como
apregoam as escrituras, então aquela situação, seja qual for, já estava
desenhada. Mas ok, não existe acaso e existe o tal do livre arbítrio, então
estamos a mercê das próprias escolhas, certo? Então me explica o seguinte, eu
estava destinado a conhecer determinada pessoa (por expiação, por
complementação ou por amor) daí por um descuido meu ou desta pessoa, nos
estrepamos pela vida afora e lá na frente nos conhecemos (ou reconhecemos?) e
como num passe de mágica, mudamos nossas historias (para o bem ou para o mal).
Caramba, se isto aconteceria, contra ou a favor de nossa vontade, porque cargas
d’água querem que acreditemos em livre arbítrio? Como pode ser isto? Tipo
assim: “olha só, até aqui você vai sozinho, mas em algum lugar eu vou botar meu
dedo e mudar seu destino com ou sem a sua permissão”. Aí você me diz, “ah, mas
você escolheu que seria assim” e eu respondo, “como posso ser responsável por
uma escolha de que não me lembro ter feito?” e você sentencia, “quando se
lembrar vai perceber que era necessário que fosse assim”. Pronto, eu sou um
fantoche e, pior, de mim mesmo. Inconscientemente todas as cagadas que faço e
fiz na vida é por causa de um tal véu de esquecimento que eu não tenho a menor
possibilidade de remover para tornar essa trajetória mais amena pelo planeta,
ou, pelo menos, menos conturbada. É como se o papel de Deus estivesse
engavetado na minha memoria e fosse incapacitado de agir na minha vida por
conta de que a chave desta gaveta estivesse embrulhada num véu de esquecimento
que eu mesmo, a despeito de ele ser Deus, tinha determinado que fosse assim, ou
seja, nasci pra sofrer porque eu quis que fosse assim e nem Deus pode me
ajudar. Que absurdo. – desabafou Paulo
- Interessante seu ponto de vista. Mas existe
sim o livre arbítrio, só que ele vai de encontro ao que você mesmo desenhou de
seu destino, sei que não lhe agrada saber disso, mas é assim.
- Pois é, já pensei em ser um religioso,
entrar para algum tipo de igreja, seita, credo...
- Não faça isso. Não quero que você seja um
religioso, destes que saem pelas ruas, praças, metrôs, estações rodoviárias,
bradando que o fim está próximo, que é preciso se arrepender. Não, o homem não
foi desligado de Deus para que tivesse que se religar e mesmo que isto tivesse
ocorrido, a “religião” não é um interruptor que acende a luz do mundo. Deus
quer o seu coração, não a sua rendição. Ele o tornou capaz de discernir. A sua
escolha é só sua, ninguém pode lhe dizer que determinado caminho é certo ou é
errado, isso você pressente no instante que opta por um ou por outro.
- Muitas pessoas vão às igrejas a
procura de Deus e muitas O encontram, mas nem todas. Então eu pergunto; Deus
não está na igreja? E se Ele não está, como alguns O encontram lá? Vou poupa-lo
da resposta, eu respondo; Ele está na igreja.
- Outras pessoas vão busca-Lo em
templos, casas espiritas, cultos espiritualistas e, como as primeiras, algumas
O encontram e outras não. Deus não está lá? Ele está. Resumindo, Deus estará
onde você O procurar, porque, na verdade, você O carrega a todos os lugares
onde vai, só não se lembra disso. Se você bater na porta, Ele vai abrir.
Busque-O e O encontrará.
- É preciso ser dito aqui uma
verdade. A grande maioria, a massa esmagadora que diz que vai a igreja (ou
templo, ou seja qual for o lugar de “religião”) procurar Deus, mente. Só
procuram a Deus no momento ruim, não por adora-Lo ou por acreditar que Ele pode
todas as coisas, O procuram numa última (eu disse ÚLTIMA) tentativa de resolver
uma tragédia, seja de uma doença terminal, de um filho perdido nas drogas, de
uma vida financeira arruinada, um casamento destruído, um cônjuge que trai ou
um pai que bebe, bem, a lista é imensa, inumerável, mas é aí que se lembram do
Deus que criou a eternidade e mapeou de avisos todos os seus itinerários, “não
vá por aí”, “não dê o primeiro gole”, “não repare tanto assim”, “cuidado”,
“cuidado”, “cuidado”... Então vão busca-Lo. O Deus mágico que estala os dedos e
coloca todas s coisas no lugar. Digamos então que resolveu. Pronto. A pessoa
consegue sentir a presença Dele e a partir daí, sua vida volta ao normal, seus
problemas se resolvem, seu mundo entra nos eixos. Ok? Não demora quase nada, a
maioria sai da “religião”, não participa mais, não tem vontade. Sabe por que?
Volte lá para traz. Ela não foi buscar a Deus, não era esse seu foco. Ela foi
buscar o milagre, com Quem cria o milagre e acabou. Ela não lembra, não sabe ou
não entende que Ele vai onde ela vai porque ela o carrega e se sua atitude O
entristece a ponto de Ele deixar que siga sozinha, ela vai reclamar que Ele não
liga pra ela... Essa é a religião que você realmente quer seguir? Garanto que
não é a que Deus quer que você siga.
- Você é ótima Nágila, ainda quero muito
conversar com você. Não estou a procura de Deus por desespero, como a imensa
maioria, eu estou a procura do que Deus quer comigo.
- Bem, alguma coisa me diz que conversaremos
bastante durante sua viagem e lá mesmo, no lugar onde estará... Então, preparado?
Acalme-se e boa viagem... – nisso Paulo desliga.
“E
da boca do dragão, e da boca da besta, e da boca do falso profeta, vi saírem
três espíritos imundos, semelhantes a rãs.”
Apocalipse
16:13